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terça-feira, 23 de abril de 2019

Reagentes do VIH usados no país davam falsos resultados

Reagentes do VIH usados no país davam falsos resultados


Maria Lúcia Furtado
Fotografia: Agostinho Narciso | Edições Novembro


Cerca de 310 mil é o número estimado de pessoas em Angola que estejam a viver com VIH. Destes, 190 mil são mulheres, muitas em estado de gestação. A revelação é da directora do Instituto Nacional de Luta Contra a Sida, Maria Lúcia Furtado. A responsável sublinha que, no país, cerca de 70 por cento das pessoas infectadas só se dirigem às unidades hospitalares quando estão com sinais e sintomas muito evidentes da doença, o que revela falta de cultura de fazer o teste com antecedência, sem depender de sintomas. Em entrevista ao Jornal de Angola, a especialista em Saúde Pública avança ainda um erro muito frequente: muitos homens negam-se a fazer o teste de VIH, porque se apoiam no já feito pelas esposas, quando ficam grávidas.

Confirma informações que apontam para o aumento considerável do número de mulheres entre os 15 e os 20 anos com diagnóstico positivo?

Não lhe consigo precisar a faixa etária mais acometida com a doença no país, porque não dispomos de um sistema de notificação de casos, que permite obter tais resultados. Em Saúde Pública, para apurar a veracidade de um dado, temos de nos basear em evidências.

O que faz, na prática, um sistema de notificação de casos?

A ausência desse mecanismo leva a que um mesmo indivíduo faça o teste em várias unidades hospitalares e, no caso de dar positivo, não se consegue especificar a quem pertence o resultado. Por exemplo, se um indivíduo faz o teste de VIH no Hospital Josina Machel, dá positivo e, por razões de dúvidas, volta a fazer outro no Hospital Esperança, não há um sistema de notificação que alerte que ele já fez no Josina Machel e o resultado foi positivo.

Como é que se faz o enquadramento desses resultados?

Os resultados entram para a estatística apenas como testes positivos. Por essa razão, quan-do apresentamos a estatística, falamos de testes positivos e não de casos. Mas alguns jornalistas, por desconhecerem este dado, falam em casos.

O sistema tem alguma influência no combate ao VIH?

Sim. É também por falta deste sistema que o Instituto Nacional de Luta Contra a Sida não consegue fazer a estimativa de pessoas a viver com o VIH por município. Temos dificuldade para realizar esse trabalho, porque não temos prevalência por município. Apenas por província. De igual modo, não fazemos estudo na população dos 0 aos 14 anos, por falta de prevalência. Para combater o VIH-Sida, os outros países investiram muito no sistema de informação, chamados de notificação de casos.

Quando é que Angola vai ter um sistema de notificação de casos?

Estamos a trabalhar para tê-lo.

Há informação segundo a qual a empresa que fornece teste do VIH ao Ministério da Saúde entregou uma linha do produto sem qualidade e que estava a fazer com que todos os exames feitos dessem positivo. Até que ponto é verdade?

Também tive a oportunidade de ler essa informação. Em causa, estava um tipo de reagente que não fazia parte do nosso algoritmo. Algoritmo é a lista dos testes que são permitidos para identificação de uma determinada doença. Para detectar o VIH, fazemos sempre dois testes: um para rastreio e outro para confirmar. Os únicos testes aprovados para fazer o diagnóstico do HIV no país são o "Determine" e o "Unigold". Acontece que apareceu outro tipo de teste no nosso sistema, concretamente em algumas províncias, chamado "Aria". Os técnicos que se aperceberam da presença do mesmo avisaram e, sem demora, reagimos, escrevendo para a Inspecção Geral da Saúde, que, prontamente, tomou as devidas medidas, sendo uma a proibição do uso do referido teste.

Mas eram mesmo feitos testes para dar positivo?

Davam falso positivo, ou seja, indeterminados. Dos dois testes que eram feitos, um dava positivo e outro negativo. Este erro já foi corrigido. A empresa está a repor outro material e todos os testes feitos foram repetidos já com aqueles que fazem parte do nosso algoritmo.

Qual é o nível de contágio do VIH em Angola?

Baseado em prevalência que se encontra através de inquérito e estudos sero-epidemiológicos, cerca de 310 mil pessoas em Angola estão a viver com o VIH. Deste grosso, 280 mil são adultos, entre homens e mulheres. Destes, estima-se que 190 mil sejam somente mulheres, das quais 21 mil grávidas. São os últimos dados, levantados no ano passado.

Há no país a cultura de as pessoas fazerem o teste de VIH?

No nosso país, cerca de 70 por cento das pessoas infectadas pelo VIH só se dirigem às unidades hospitalares quando estão com sinais e sintomas muito evidentes da doença. Isto revela falta de cultura do teste com antecedência, sem depender de sintomas. Na maioria das vezes, essas pessoas chegam já muito debilitadas, ou seja, na fase 3 e 4, o que obriga o internamento.

Diz-se que há homens que se negam a fazer o teste de VIH e apoiam-se no que as mulheres fazem, quando ficam em estado de mãe. Esta prática é segura?

Não, não é uma prática se-gura. Já ouviu falar de casais seres discordantes? A mulher pode ser negativa e o homem positivo. Por isso, o mais se-guro mesmo é que os dois façam. Não dói e é gratuito. Caso contrário, funciona como na igreja: a salvação é individual.

Existe alguma estratégia para estimular os homens a fazerem mais testes, sem depender do já feito pelas esposas?

Existe uma estratégia, mas não foi concebida para este fim, embora chegue lá. Denomina-se "Caso Índice" e consiste em testar todos os membros da família da pessoa cujo teste dê positivo. É a forma que encontramos para melhor controlar o número de pessoas a viver com a doença no país. Assumimos a meta dos 90/-90/90, até 2020.

O que significa?

Significa que temos de diagnosticar 90 por cento das pessoas a viver com VIH no país, pô-los em tratamento com anti-retrovirais e suprimir a carga viral delas até 90 por cento. Daí o 90/90/90. O ob-jectivo é fazer com que até 2030 a Sida deixe de ser um problema de saúde pública em Angola.
Qual é a prevalência do VIH em Angola?
A prevalência de Angola é de 2 por cento. É das mais baixas da região. A Namíbia, por exemplo, tem cerca de 13 por cento e a Zâmbia 11 por cento.

Como está a situação a nível das províncias?

Cunene é a província com maior prevalência. Tem 6,1 por cento. A seguir vem o Cuando Cubango, com 5,5 por cento, Moxico, com 4 por cento, Lunda-Sul, com 3,9 por cento, e Lunda-Norte, com 3,4 por cento. Luanda aparece com uma prevalência de 1,9 por cento, mas, apesar de apresentar essa prevalência, no terreno, o número de pessoas a viver com o VIH é maior, porque é a província mais populosa do país. As províncias do Zaire, Cabinda, Uíge e Hu-ambo apresentam menos de 1 por cento.

Qual a razão para tanta variação nas percentagens das províncias?

Temos de fazer estudo. Não podemos falar só por falar. Há estudos que dizem que a circuncisão é uma das medidas preventivas não só para o VIH, como para outras Doenças Sexualmente Transmissíveis (DTS). Se formos a ver, a província do Cunene tem menos homens circuncidados, mas tem a prevalência que tem. A província do Cuanza-Norte, por exemplo, não faz fronteira com países de alta prevalência, mas apresentou uma prevalência de 3 por cento, maior até que a média nacional. É preciso saber os principais motivos que fizeram com que a prevalência aumentasse nessa província. Durante muitos anos, Cuanza-Norte teve uma prevalência de menos de 1 por cento.

A identificação da “população-chave e vulnerável” de um país é uma das medidas usadas no combate ao VIH. Qual é a população chave e vulnerável de Angola?

Em Angola, a população chave compreende as trabalhadoras de sexo e os homens que se relacionam entre si. Muitos países adicionam a essa lista os usuários de droga injectáveis. Como não temos dados sobre essa franja, não a classificamos. Ainda sobre a população chave, importa sublinhar que as trabalhadoras de sexo constituem o segmento com a maior prevalência no país, que até chega a ser cinco vezes mais alta que a prevalência na população em geral. Já a população vulnerável compreende os prisioneiros, camionistas, os polícias e os militares.

Taxa de abandono da medicação é de 54 por cento

Qual foi o número de óbitos pelo VIH no ano passado?

São estimativas. Em 2017, foram 13 mil óbitos, de acordo com os últimos dados da ONU-Sida. Os dados de 2018 estão a ser preparados para saírem agora.

Por que razão fala em “estimativas” e não em dados concretos?

Porque não temos um sistema de informação de mortalidade. Para piorar, muitas famílias pedem ao médico para não colocar no boletim de óbito que o seu parente morreu de Sida. Pedem para colocar outra doença.

É verdade que os anti-retrovirais usados em Angola são dos menos eficazes e que devem ser trocados em Junho?

Ainda bem que toca neste assunto. Circulou, recentemente, na imprensa uma notícia que dizia que Angola vai introduzir novos anti-retrovirais em Junho. Essa informação não corresponde à verdade. Angola não vai introduzir novos fármacos em Junho, embora se admita a possibilidade de um dia isso vier a acontecer, tendo em conta que o Sida é uma doença crónica.
/>O que terá levado órgãos de comunicação social a noticiar?

Um mal entendido, só pode.

O mal entendido estará relacionado com a questão da eficácia?

Estará, eventualmente, relacionado com uma informação sobre uma recomendação que a OMS vai fazer em Junho aos países, para aumentarem a cobertura de planeamento familiar nos seus sistemas de saúde, como um dos requisitos para a introdução de um novo anti-retroviral. Angola ainda está a analisar se vale a pena usar, pois apresenta muitos efeitos colaterais em mulheres em idade fértil. Os países que têm uma taxa de fecundidade muito alta, como é o nosso caso, devem ainda ponderar. Estamos entre os dez países do mundo com as maiores taxas de fecundidade. A média é de seis filhos para cada mulher, segundo dados do Inquérito de Indicadores Múltiplos de Saúde, feitos em 2015 e 2016, e divulgados há dois anos. De igual modo, vai ser preciso ainda analisar quanto vai impactar no OGE, pois custa dois dólares a mais do que aquelas que compramos.

Qual é o principal efeito colateral desse fármaco?

De acordo com alguns estudos já feitos, esse remédio provoca a má formação da espinha bífida do bebé. A OMS recomenda que a droga é segura, mas, ao mesmo tempo, pede que se tenha cuidado com as mulheres em idade fértil.

O país está a trocar alguns anti-retrovirais por outros, também por orientação da OMS. Pode comentar este assunto?

Em 2004, data em que o país começou a tratar pessoas com VIH e Sida, tínhamos definido, com a anuência da OMS, como esquema a ser usado no início do tratamento da doença, três fármacos, nomeadamente, a Zidovudina (AZT) + Lamivudina (3TC) + Nevirapina (NVP). Esse era o esquema preferencial para as pessoas que iriam começar o tratamento com anti-retrovirais. Mas, em 2016, a OMS, baseada em estudos que avaliam a eficácia e os efeitos colaterais dos anti-retrovirais, orientou a retirada da Nevirapina do esquema e, no seu lugar, recomendou o uso do Efavirenz (EFV).

O que levou a OMS a retirar a Nevirapina do esquema?

Porque o seu efeito colateral agredia o fígado, impedindo-o de exercer condignamente as suas funções. Às pessoas com problemas de fígado não era aconselhado o uso desse medicamento. Por essa razão, orientou-se a troca por Efavirenz.

Essa recomendação foi ex-tensiva àqueles cujo organismo já estava adaptado ao fármaco?

Sobre essa questão, a OMS havia recomendado que os pacientes que começaram o tratamento antes de 2016 e que já estavam adaptados à medicação anterior podiam continuar. Com isso, passámos a ter dois grupos: os que usavam o esquema antigo e os que deviam usar o novo. Acontece que, em Dezembro do ano passado, a OMS, através de uma nova orientação, recomenda a retirada da Nevirapina até para aqueles cujo organismo já se tinha habituado. Como os anti-retrovirais são feitos por encomenda, já tínhamos encomendado o esquema que leva esse fármaco, em Novembro do mesmo ano, com a previsão de chegada para Fevereiro deste ano.

A encomenda já chegou?

Já sim. Mas importa esclarecer que a OMS não recomendou que os referidos remédios fossem deitados fora. A OMS autorizou o uso do que já se tinha, mas orientou que não se comprasse mais. Apesar disso, já orientámos o não uso desse esquema proibido pela OMS. Por exemplo, na província do Cunene, já recomendámos o não uso do referido fármaco. Estamos a retirar de todo o paciente que usava o esquema que leva Nevirapina e, no seu lugar, introduzimos o Efavirenz. Com essa alteração, os que começaram o tratamento em 2016 estão a fazer o Tenofovir+Lamivudina+Efavirenz. Agora, àqueles que faziam o Azedovudina+Lamivudina+Nevirapina só vamos mudar a Nevirapina por Efavirenz. Esse processo de transição já começou.

Qual é a taxa de abandono da medicação?

A taxa de abandono a nível nacional, com base numa auditoria que fizemos, é de 54 por cento. A taxa de retenção é de apenas 46 por cento.

O que está na base do abandono?

Uma das principais causas que leva as pessoas a abandonar a medicação é o nosso povo não aceitar ainda a doença. Muitos, depois de notar que estão a melhorar, desistem da medicação, ignorando o facto de a medicação ser para toda a vida. Outros há ainda que desistem da medicação com o argumento de que dá muita fome e não haver, às vezes, o que comer. Estamos a desenhar um estudo para melhor identificar as causas do abandono.

Diz-se que os anti-retrovirais usados em Angola são dos menos eficazes. A senhora confirma?

É preciso falar com base em evidências, porque em Saúde Pública isso de ouvir falar não diz muito. São fogos para irmos atrás, para ver até que ponto a informação é representativa e se dá para falar de uma maneira geral. O sucesso do tratamento com anti-retrovirais depende do paciente, porque se ele deixa de tomar, mesmo que for um dia, compromete a mediacação. Portanto, não se deve deixar de tomar, sequer um dia.

Mas são ou não eficazes, se comparados com outros?

Temos um protocolo nacional e quem nos apoia tecnicamente é a OMS. Em função disso, é impossível termos um esquema que não esteja dentro da recomendação dessa mesma instituição.

Quem faz a compra dos anti-retrovirais para o país?

Temos um acordo com o PNUD, desde 2016, que passa pela compra dos remédios, em indústrias pré-qualificadas pela OMS, a preços até quatro vezes mais baixos, se comparados com os do mercado. Mesmo quando comprávamos os fármacos através de empresas locais, os mesmos eram analisados pela instituição que zelava pelo controlo de qualidade. Agora, comprando através de uma agência das Nações Unidas, como o PNUD, a responsabilidade é maior e até é mais seguro. Importa sublinhar que os fármacos são adquiridos com a nossa quota financeira, que sai do OGE, mais o financiamento que recebemos do Fundo Global.

A propósito de Fundo Global ... A instituição reduziu o apoio financeiro ao país...?

Sim, houve uma redução. Na ronda anterior, que começou em Julho de 2016 a Junho de 2018, o Fundo Global apoiava com 30 milhões de dólares para tudo, sendo que 70 por cento desse valor era destinado para a compra de anti-retrovirais. Já na nova ronda, que começou em Julho de 2018, para terminar em 2021, a instituição reduziu esse valor para 23 milhões de dólares, mas aumentou o período de cobertura do apoio para o tratamento da doença. Outro grande desafio é que, na ronda anterior, o Fundo Global cobria 40 por cento do número de pessoas que fazem o tratamento da doença no país. Nessa nova ronda, só vai cobrir o tratamento de 30 por cento, correspondente a 31 mil pacientes.Na altura em que desenhámos o projecto, isto é, em 2017, este número representava 40 por cento. Mas, hoje, este número já representa 30 por cento. O número do Fundo Global agora passou a ser absoluto. Só vai cobrir 31 mil pacientes.

Quanto é que o Estado gasta com o tratamento do VIH?

No nosso orçamento deste ano, 2019, a nossa necessidade estava estimada em cerca de 13 mil milhões de kwanzas. Desse total, 70 por cento estava destinado para a compra de anti-retrovirais. Entretanto, o orçamento foi aprovado com cerca de oito mil milhões, já com os salários incluídos. Só em bens e serviços, ficaria em cerca de mais de sete mil milhões de kwanzas. O orçamento do ano passado disponibilizado foi de cerca de três mil milhões de kwanzas, sendo dois mil milhões destinados para a compra de anti-retrovirais.

Esses valores são suficientes?

Não, não têm sido suficientes. Por isso é que recorremos a financiamentos externos. Mas, ultimamente, já tem havido um maior envolvimento do Governo. Só para ter uma ideia, em 2016, a execução foi de cerca de 16 por cento; em 2017, foi de 20 por cento e, em 2018, de 70 por cento. Isso mostra que o Estado já está a honrar o seu compromisso.

As mulheres estão a fazer mais testes com o surgimento do projecto “Nascer Livre para Brilhar”?

Sim, os números mostram que elas estão a fazer mais testes. Há um aumento de cobertura de mulheres grávidas que fazem o teste de VIH no país. Para ter uma ideia, no ano passado, fizemos 476 mil testes em mulheres grávidas durante os 12 meses. Já de Janeiro, foram cerca de 60 por cento dos dados de Fevereiro, registámos 127 mil testes em grávidas. Quer dizer que a campanha está a produzir um impacto positivo.

Qual é o lema desse ano para o combate à doença?

“Conheça o seu estado serológico". Quer dizer que, quanto mais cedo se fica a saber que se é portador da doença, melhor é a resposta e a qualidade de vida.

JA

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

João Lourenço em entrevista ao Expresso: “São conhecidos os que traíram a pátria”

João Lourenço em entrevista ao Expresso: “São conhecidos os que traíram a pátria”




É a primeira grande entrevista desde que foi eleito Presidente de Angola. João Lourenço abriu as portas do Palácio da Cidade Alta e não fugiu a nenhuma pergunta. Falou sobre a relação com José Eduardo dos Santos, o combate à corrupção e o repatriamento das fortunas escondidas pelos angolanos no estrangeiro. Vai estar em visita oficial a Portugal na próxima semana e deixa desde já um recado: “Queremos investidores e não simplesmente comerciantes”


“Mimoso” era o nome pelo qual era conhecido durante a infância no Lobito, onde nasceu há 64 anos. Desta cidade portuária vai para o interior de Angola para onde o pai foi desterrado pela PIDE. É na antiga cidade de Silva Porto, prestes a concluir o Curso Geral de Mecânica, na Escola Industrial, que sabe da existência do golpe ocorrido a 25 de abril de 1974. A queda em Portugal do regime colonial leva-o a alistar-se nas FAPLA — antigas forças armadas do MPLA —, onde faz carreira como comissário político até ascender, em 1998, ao cargo de secretário-geral do partido. Depois de uma longa travessia do deserto, foi eleito há um ano Presidente de Angola e inicia uma vaga de reformas que, após 38 anos de governação, põem em causa o poder do clã de José Eduardo dos Santos. Em vésperas de realizar a primeira visita oficial a Portugal, em entrevista exclusiva ao Expresso, João Lourenço diagnostica o pesado fardo herdado do antecessor, aponta os caminhos a trilhar para ultrapassar a crise que assola Angola, e traça novos desafios para o aumento da cooperação entre os dois países.

É hoje Presidente da República. Antes de chegar aqui, no primeiro grande embate político, em 1998, perdeu para Lopo do Nascimento a disputa do cargo de secretário-geral do MPLA. Como reagiu a essa derrota?
Na vida política, que não é uma linha reta e tem altos e baixos, isso é absolutamente normal. Por esta razão, pode perder-se uma batalha sem perder a guerra. Foi uma disputa interna, que considerei irrelevante e o importante é que, depois disso, acabei por assumir outras importantes funções quer a nível do partido quer a nível do Parlamento.

Diz que assumiu importantes funções e uma dessas funções foi a de secretário-geral do MPLA. Com a sua ascensão à segunda posição na hierarquia do MPLA, sentiu algum sinal de abertura para entrar para a corrida à sucessão de Eduardo dos Santos?
Enquanto fui secretário-geral, contrariamente ao que se diz, nunca ambicionei o cargo de Presidente da República. Naquele ano e nos anos imediatamente a seguir, não havia, de resto, eleições gerais à vista. O que fiz na altura, em resposta a uma pergunta de um jornalista, que pretendia saber a minha opinião sobre as declarações do então Presidente [anunciara que não mais seria o candidato do MPLA], foi dizer que as suas declarações eram sérias, que o considerava uma pessoa séria e que iria honrar a sua palavra.

A verdade é que foi necessário esperar 17 anos para ver José Eduardo dos Santos realmente honrar a palavra e abandonar o poder...
Houve pessoas mal-intencionadas que viram na minha resposta a intenção de me candidatar a um lugar que não estava disponível.

Depois de uma longa permanência no Parlamento, há dois anos, ingressa no Governo pela mão de Eduardo dos Santos, para exercer as funções de ministro da Defesa. O que é que esse regresso representou para as suas ambições políticas?
Era uma missão a cumprir e julgo tê-lo feito da melhor forma. Não era o único ministro em funções e não vejo por que razão só o ministro da Defesa seria o único a ter ambições. Até poderia ser exonerado.

Mas ter ambições políticas não é nenhum crime...
Claro que não. Aceitei ser ministro independentemente de saber o que iria ser a seguir.

A sua nomeação para a pasta da Defesa agitou as águas políticas...
Não sei porquê. Pela Defesa passaram vários ministros, eu não era o primeiro nem seria o último...

Depois disso foi indicado para suceder a José Eduardo dos Santos. Essa indicação surpreendeu-o ou era mais ou menos previsível?
Se fui indicado foi porque quer José Eduardo dos Santos quer o MPLA reconheceram em mim qualidades para poder ser candidato à sua sucessão.

Depois de Eduardo dos Santos ter estado 38 anos aos comandos do Governo de Angola, a passagem de testemunho, em menos de meia hora, surpreendeu muita gente. Também o surpreendeu a si?
Para ser sincero, a mim também me surpreendeu.

Não era, portanto, isso que esperava...
Não, esperava uma verdadeira passagem de pasta em que me fosse dado a conhecer os grandes dossiês do país e isso, de facto, não aconteceu.

E achou isso estranho...
Não tenho que me lamentar se voluntaria ou involuntariamente nada me foi apresentado. Era minha obrigação ir atrás dos dossiês e conhecer a fundo o que se estava a passar.

Quem foram as pessoas que mais de perto trabalharam consigo para ter acesso a esses dossiês?
Andamos na política há muitos anos e, conhecendo os cantos da casa, fomos vasculhá-los...

Foi fácil?
Foi difícil. Estivemos diante de uma anormalidade com despachos feitos em vésperas da minha investidura, nomeadamente, entre outros, sobre o porto da Barra do Dande, para favorecer quem pretendiam favorecer. Nada me foi dado a conhecer, apesar de ser o Presidente-eleito...

Tudo isto está já ultrapassado?
Sim, claro. Com base nas descobertas que fui fazendo, num curto espaço de tempo, imprimi uma dinâmica de trabalho jamais vista com importantes reformas em praticamente quase todos os domínios.




Como gere o facto de ter um vice-presidente da República que não foi uma escolha pessoal, mas antes imposto pelo seu antecessor?
Não é o caso. Houve a tentativa de imposição de outras figuras para outros cargos, nomeadamente o cargo de ministro de Estado e chefe da casa de segurança, a que me opus de forma firme. Caso tivesse acontecido o mesmo com o cargo de vice-presidente ter-me-ia também batido ao ponto de não aceitar tal imposição. Se consegui que não me impusessem um ministro de Estado, também não aceitaria que me impusessem o vice-presidente...

Como é a vossa coabitação?
Pacífica.

No entanto, Bornito de Sousa não é uma escolha sua...
Não temos de trabalhar só com os amigos, conterrâneos ou familiares. Temos, isso sim, de trabalhar com patriotas e cidadãos que defendem, não a minha causa, mas a causa do povo angolano.

José Eduardo dos Santos, em privado, tem manifestado arrependimento em relação à indicação do seu nome para lhe suceder.
Se a afirmação é verdadeira, a questão não tem de ser colocada a mim mas a ele próprio. Talvez ele possa justificar por que razão é que tem esse sentimento.

Sente que o traiu?
Não me fale em traição. São conhecidos os que traíram a pátria, a nação conhece-os, sabe quem são e o que fizeram.

Vai levá-los a tribunal?
É para a história registar.

Elegeu a cruzada contra a corrupção como uma das prioridades da sua estratégia governativa. Uma das primeiras decisões que tomou foi a de afastar os filhos do antigo Presidente de importantes centros de decisão política, económica e financeira, como a TPA, a Sonangol, a Sodiam e o Fundo Soberano. Porquê?
Não afastei filhos de ninguém. Afastei quadros, que são cidadãos nacionais. O afastamento desses quadros obedeceu aos mesmos critérios que levaram ao afastamento de outros quadros. Quantos quadros foram exonerados ou nomeados desde que tomei posse como Presidente? Dezenas. É injusto e um desrespeito para com a família dos outros, que tendo também pais, estes estariam igualmente no direito de perguntar por que razão os seus filhos foram exonerados...

No caso de Isabel dos Santos, uma empresária que até tem criado milhares de empregos, não era possível encontrar uma solução negociada?
Não trato ninguém como pessoas especiais. Para mim não há pessoas especiais. Entendi que a Sonangol merecia outro Conselho de Administração e assim o fiz, e não estou arrependido de o ter feito. Se tivesse de o fazer de novo, fá-lo-ia.

Está satisfeito com o novo Conselho de Administração da Sonangol?
A análise que faço é que a Sonangol está melhor do que estava.

No combate à corrupção, conta com uma nova Procuradoria-Geral da República (PGR). Na posse de inúmeros e comprovados casos de gestão danosa a vários níveis do poder central, provincial, municipal, empresarial público e das Forças Armadas, está em condições de garantir que irá levar estes casos todos até às últimas consequências?
Quem vai levar esses casos a tribunal são os órgãos de Justiça, a começar pela PGR. Não são os políticos. Estes procuram apenas cumprir e fazer cumprir a Constituição e a lei no geral. Nos casos particulares de corrupção, essa missão não cabe aos políticos, cabe aos órgãos de investigação, Ministério Público e aos tribunais. Só eles é que se podem pronunciar até onde é que estes casos podem ir.

Ao tomar posse há um ano, como encontrou os cofres do Estado?
A crise instalou-se no nosso país por volta de 2014 e quando fui empossado ela estava no auge. Como se isso não bastasse, ainda houve a tentativa de retirada dos parcos recursos do Estado de cerca de 1,5 mil milhões de dólares para serem depositados numa conta no exterior de uma empresa de fachada. Foi uma jogada de alto risco que, felizmente, graças à colaboração das autoridades britânicas, conseguimos fazer abortar, depois de terem saído 500 milhões de dólares. Esta é a situação que encontrámos: os cofres do Estado já vazios com a tentativa de os esvaziarem ainda mais!

Hoje, o cerco à corrupção estende-se ao confisco de bens dentro e fora do país daqueles que se oponham ao repatriamento voluntário de capitais ilicitamente saídos de Angola. Tem noção do montante em causa?
Nestas situações não se tem o valor exato e, muitas vezes, nem aproximado. Sabe-se que serão recursos avultados. Conhecemos experiências idênticas, como a da Nigéria, mas o importante é haver vontade de reaver esses recursos. Vai ser um trabalho árduo, em que o Estado vai ter que contratar serviços de especialistas na matéria, os chamados caçadores de fortunas. O Estado vai ter que fazer acordos judiciários com outros Estados, como o que fez com Portugal para, desta forma, em várias frentes, ir apertando o cerco até que se descubram os esconderijos do dinheiro de Angola.

Vai ser um processo longo?
Sim, vai ser um processo longo. Isto vai acontecer em maior ou menor medida, e as pessoas que não pensem que em janeiro de 2019 vamos anunciar: olhem, recuperámos todo o dinheiro que saiu de Angola ao longo destes anos...

Sendo Angola, perante alguns países, obrigada a provar quem prevaricou, as autoridades angolanas já têm em sua posse essas provas?
Temos de trabalhar em conjunto com as polícias, os serviços secretos, as unidades de informação financeira, os bancos estrangeiros, etc. Não posso ser mais claro do que isto, não posso dizer se já estamos a fazer isso ou se vamos fazer. O simples facto de termos dado uma moratória de seis meses, alguns talvez tenham já tentado ludibriar as autoridades...




Já há angolanos a repatriar dinheiro voluntariamente para Angola?
Que eu saiba não.

E não admite que perante a gravidade de alguns desses casos, praticados alegadamente com a chancela do antigo Presidente, este possa um dia vir a ser chamado a depor em tribunal?
Há um estatuto dos ex-Presidentes em que estes, seja qual for a situação, durante um certo período, não podem ser incriminados. Por outra razão, se os crimes são cometidos por outrem, quem os cometeu que assuma a responsabilidade. Se alguém cometer um crime hoje, quando amanhã deixar de ser Presidente da República que ninguém me diga que eu sou responsável por isso; quem cometeu o crime que o assuma.

José Eduardo dos Santos propiciou a muitos dirigentes do MPLA, incluindo aparentemente a si, benesses. Não teme que, numa situação de fragilidade e de desespero, ele possa vir a terreiro comprometer publicamente muita gente a quem deu oportunidade de negócios e que agora lhe vira as costas?
Acho que prestaria um grande serviço à nação. Eu encorajá-lo-ia a fazer isso mas, mesmo que não denuncie quem beneficiou do banquete, as figuras que de forma vergonhosa delapidaram o erário público são conhecidas...

Sente-se à vontade com os seus ativos?
Não tenho receio nem necessidade de os esconder, e, por isso, estão aí, foram adquiridos ao longo de anos, não sou milionário e muito menos bilionário. Não me sinto parte do grupo de pessoas que, sem justificação, têm grandes fortunas.

É verdade que o combate à corrupção tem sido aplaudido por amplos sectores da sociedade, contudo a população agora quer mais. Exige emprego, saúde e educação de qualidade, a economia continua à procura de um rumo. Por tudo isto, para a população angolana só o combate à corrupção já não chega. Como pensa agir?
Não me está a dizer para abandonarmos o combate à corrupção para nos dedicarmos só à economia. Temos que fazer tudo em simultâneo, e é o que estamos a fazer. Não consumimos 24 horas do dia a pensar e a falar do combate à corrupção. Antes pelo contrário, consumimos grande parte do nosso tempo a pensar nas soluções económicas e sociais para ver se criamos mais emprego e melhoramos a vida da população.

Que parece desesperada...
Compreendo o desespero das pessoas, não tanto a forma como as análises, às vezes, são feitas, mas a avidez por condições melhores é um sentimento humano, que é absolutamente normal e que temos de compreender.

Mas acha que é fácil compreender isso...
As pessoas também têm de ver que 12 meses é um abrir e fechar de olhos. Em 12 meses não se encontram as soluções para os grandes problemas que o país enfrenta. Eu exerço este cargo há exatamente 13 meses, portanto, exigir do meu Executivo muito mais do que temos vindo a fazer, não parece justo nem realista sequer. Não há milagres, mas mesmo assim já conseguimos o ‘milagre’ de termos feito muito em pouco tempo.

Em sectores como a agricultura, depois de uma aposta desastrosa em projetos megalómanos esperava-se mais...
Estou de acordo. Prova disso é que descontinuámos a filosofia de o Estado empatar milhões de dólares na montagem de grandes fazendas agrícolas para a produção de cereais e de ovos, que não deram resultados absolutamente nenhuns.

Há então, neste domínio, uma nova política?
A nossa decisão é que o Estado deve desfazer-se desse tipo de investimentos, em que não tem capacidade para os gerir e passá-los, através de concursos públicos, para o sector privado. O nosso enfoque será, portanto, a agricultura familiar sem prejuízo de esta poder coabitar com os empresários que apostam nas grandes fazendas privadas e que merecerão também o nosso apoio. Porém, a nossa principal preocupação será o apoio à agricultura familiar.

O nível da dívida pública, que consome mais de 70 por cento do PIB, assusta, e a contração de novos empréstimos ao estrangeiro é vista em certos meios com muitas reservas. O ceticismo prevalecente é ou não justificado?
A respeito da dívida, costumo dizer que os Estados só se desenvolvem com dívida. Ninguém se desenvolve só com o seu dinheiro. Grandes potências são grandes devedoras e desenvolvem-se com o dinheiro que lhes é emprestado. Portanto, Angola não é exceção, e o problema da dívida não é a dívida em si mesmo, mas não ter capacidade para reembolsar os valores da dívida nos prazos acordados. Desde que exista essa capacidade de pagar a quem devemos, não tenho medo do endividamento. Desde que este esteja dentro dos limites aceitáveis em termos de capacidade de reembolso, nós não vemos aí um problema.

Porque é que que os chineses fazem agora novas exigências para emprestar dinheiro Angola?
Antes mesmo de ir à China, difundiu-se a ideia de que íamos buscar mais de 10 mil milhões de dólares. No regresso, circulou a notícia de que tínhamos conseguido apenas dois mil milhões de dólares. Tudo informações não autorizadas. A verdade é que da China trouxemos perto de seis mil milhões de dólares de fontes diversas.

Por parte dos chineses há agora novas exigências...
Em relação à maior ou menor exigência nas condições de concessão de créditos, o dono do dinheiro está sempre no direito de impor condições. E se você precisa do dinheiro dele, discute e negoceia, e no fim diz concordo e vamos assinar, ou não concordo e vai bater a outra porta.

Em Davos, Christine Lagarde abriu as portas do FMI para ajudar Angola. No passado, este era um cenário impensável. Por que razão não hesitou agora em aceitar as receitas do FMI?
E por que razão haveria de evitar?

Porque esta foi sempre a política do seu antecessor...
Mas eu não tenho de seguir religiosamente o que se fez no passado. Eu tenho de analisar com os meus próprios olhos, com o meu próprio raciocínio e com os elementos que tenho à mão, o que considero melhor para o país. Angola é parte do FMI e se tem a possibilidade de obter financiamentos em condições melhores do que as que tem conseguido até aqui, acho absolutamente lógico ir buscar dinheiro ao nosso próprio banco.

Vê nisso vantagens?
Até a presente data, Angola foi buscar financiamentos a vários países, quase sempre com garantia de petróleo, que é uma condição gravosa, que também já tive oportunidade de denunciar. Estamos neste momento a dar passos para, daqui para a frente, evitarmos ao máximo a contração de dívidas com garantia de petróleo. Portanto, vamos renegociar com os países com quem temos contratos com garantia de petróleo.

Renegociar?
Sim, mas não estou a dizer que vamos pôr fim, de forma abrupta, a esses contratos. Há regras, mas não é segredo para ninguém que é nossa intenção passarmos a agir da forma que é normal, ou seja, passarmos a recorrer ao crédito sem garantia de petróleo. Já o conseguimos com os eurobonds, e vamos conseguir agora com o FMI. O caminho a seguir, daqui para a frente, será esse. Ou seja, vamos deixar de utilizar o petróleo como garantia de qualquer financiamento. Relativamente ao FMI, estando diante de melhores condições do que as habituais, só temos de bater palmas e ponderar se temos capacidade para devolver o dinheiro emprestado.

No final do último congresso do MPLA, José Eduardo dos Santos despediu-se da massa militante com um discurso seco e muito distante. Em resposta, o senhor levou para a cerimónia de encerramento dois discursos. Porque optou por uma versão verdadeiramente demolidora para a imagem de José Eduardo dos Santos?
Só levei um discurso. Foi demolidor? É a sua opinião. Foi o discurso possível e adequado à ocasião. Um discurso corajoso e realista. Se alguém entendeu que foi demolidor é livre de pensar assim...

Neste momento como são as suas relações com o antigo Presidente?
São normais.

Ou cinicamente normais?
Normais! Embora considere que não devemos falar aqui nesta entrevista só de uma pessoa e da sua família, mas do país.

Pois bem, o país viu-o bater-se com a Justiça de Portugal para obter a transferência para Angola do processo judicial movido contra o antigo vice-presidente, Manuel Vicente. Como está a decorrer este processo?
Está no Ministério Público. A Justiça têm os seus timings. Eu não posso influenciar nem para andar mais rápido nem mais devagar. Aguardemos, portanto, pelo desfecho.

Depois disso, afastou-o do Bureau Político do MPLA. Porquê?
Não foi o único. Se tivesse sido o único talvez se justificasse a pergunta. Havia necessidade de renovar o Bureau Político e, para entrarem novas figuras, alguém tinha de sair. Foi o que aconteceu. Eu não tenho de justificar um a um o motivo pelo qual saíram. Teria de o fazer em relação aos dirigentes históricos, ao antigo secretário-geral e a outros dirigentes. Ora em política não é assim.

O que fez em defesa de Manuel Vicente, fá-lo-á relativamente a outros angolanos?
Acho que há aqui um equívoco. Em momento algum defendemos Manuel Vicente. O que Angola fez foi defender a necessidade de um país amigo, que é Portugal, respeitar o acordo judiciário existente entre os dois países. E uma vez que o acordo está em vigor, só havia duas saídas: ou denunciá-lo, se uma das partes entendesse que já não se revia nele, ou cumpri-lo.

O nome de Manuel Vicente pesou...
O que fizemos foi chamar a atenção para a necessidade do cumprimento desse acordo, independentemente de quem se tratasse. No caso concreto era Manuel Vicente, mas poderia não ser. Pesou-se, obviamente, o cargo que Manuel Vicente ocupava. Não estou a ver que o vice-presidente da República de um país estivesse a contas com a Justiça de um outro país, e que as autoridades do seu país não reagissem. Vamos colocar a questão de outra forma. Imagine que um ex-primeiro-ministro português tinha um problema com a Justiça angolana, e que Angola fizesse finca-pé para ser julgado aqui. Qual teria sido a reação de Portugal, da União Europeia e do mundo? Esta pergunta ninguém a faz, independentemente do nome. Nós não agimos em defesa de um cidadão, mas em defesa do Estado angolano e da necessidade de um outro Estado respeitar acordos firmados anteriormente. Não se queira, pois, escamotear a verdade dizendo que se defendeu o cidadão fulano de tal. Não foi o cidadão fulano de tal que eu defendi. Defendemos apenas a necessidade de vermos respeitados compromissos assumidos pelos dois Estados.

Deu recentemente sinais conducentes à reabilitação política de antigos dissidentes do MPLA, como Mário Pinto de Andrade ou Viriato da Cruz. O que vai fazer em relação aos que estiveram envolvidos na intentona de 27 de maio?
Estão enquadrados, não direi todos, mas parte deles estão enquadrados de uma forma natural. Não vou citar nomes, mas ao longo de anos muitos deles chegaram a ministros.

É uma ferida completamente cicatrizada?
Não diria que está completamente cicatrizada. É um fenómeno que deve merecer um tratamento ponderado. Cada fenómeno é um fenómeno. Os casos da “Revolta do Leste” ou da “Revolta Ativa” tiveram contornos diferentes dos de 27 de maio.

Até que ponto é que esta abertura política será extensiva também à figuras do nacionalismo angolano pertencentes a outros partidos políticos que não apenas o MPLA?Se quer saber se podemos algum dia nomear figuras independentes, de alguma forma isso já está a acontecer. Pode não ter sido necessariamente para o cargo de ministro ou de secretário de Estado, mas em outras funções do Estado ou em empresas públicas já colocámos pessoas que não são militantes do MPLA.

À imprensa angolana disse em janeiro que o presidente do MPLA não tinha de ser necessariamente o Presidente da República. Estaria disposto a promover a mudança da Constituição, diluir os superpoderes atualmente concentrados na figura do Presidente da República e admitir candidatar-se sem a alçada do MPLA?
Em primeiro lugar, a Constituição da República não diz que o Presidente da República deve ser necessariamente o presidente de um partido. Se for só por essa razão, não vejo necessidade de se mexer na Constituição. A Constituição aboliu apenas a figura dos candidatos independentes. Os candidatos ao lugar de Presidente da República devem ser de um partido político, sem necessariamente serem o seu presidente. No nosso caso, tem sido prática ao longo de décadas o Presidente da República ser o presidente de um partido, que por sinal tem sido o mesmo, mas não é por força da Constituição.

Então não admite, a prazo, rever a Constituição?
Se for por essa razão, não!

Independentemente da razão, há, no entanto, uma crítica vinda de alguns círculos do próprio MPLA e que tem que ver com os superpoderes constitucionais herdados do seu antecessor...
Mas quem tem de admitir não sou eu, é a própria Constituição. A Constituição diz que passados cinco anos após a sua aprovação, em determinadas condições e se houver razões para isso, por a iniciativa do Presidente da República ou de pelo menos 1/3 dos deputados no exercício das suas funções, a Constituição pode ser alterada, mas não quer dizer que tenha de de ser necessariamente alterada. É preciso que haja razões para tal.

Admite que o Presidente da República está munido de superpoderes constitucionais?
Tem de haver um debate interno, e se o meu partido ou qualquer outro chegar à conclusão de que há razões plausíveis para propor a revisão da Constituição, podem fazê-lo, a Constituição permite-o. Não serei eu a impedi-lo.

Sempre se pode, portanto, diluir os atuais poderes presidenciais?
É preciso que a proposta seja feita pelo menos por 1/3 dos deputados, e que a deliberação seja tomada por uma maioria qualificada de pelo menos 2/3. O partido político que achar que tem força para fazer isso ou que pode mobilizar outras forças para se juntar a essa causa, que o faça. Se, evidentemente, tiver razões para o fazer, porque ninguém faz a revisão de uma Constituição por mero capricho. Mal estaríamos se caíssemos na tentação de alterar a Constituição a cada cinco anos só porque ela assim permite. Se as leis ordinárias não são alteradas todos os dias, imagine a Constituição! Os religiosos ainda não mudaram a “Bíblia” e, para nós, a nossa bíblia é a Constituição...

Pose. João Lourenço fotografado na passada quinta-feira no Palácio da Cidade Alta, em Luanda
SUSANA CEREJO


No plano regional, Angola tem à prova a chamada “Operação Transparência”, que resultou na expulsão de milhares de imigrantes clandestinos, que se dedicavam ao garimpo de diamantes. Alguns desses imigrantes surgiram com cartões de eleitores. Como justifica isso?
Todos vimos nas televisões dois ou três cidadãos exibindo cartões de eleitores. De longe deu para ver que eram cartões de eleitores, não dava era para provar que aqueles cartões eram das pessoas que os exibiam. Podiam ser cartões de verdadeiros angolanos, uma vez que os imigrantes viviam numa comunidade com angolanos, muitos deles até tinham angolanas como mulheres. É um facto que apareceram dois ou três com cartões de eleitores, mas daí a concluir que esses cartões lhes pertenciam, alguém tinha de ver mais de perto as fotografias e outros pormenores.

Na sequência da expulsão de milhares de congoleses, o Governo angolano não teme uma ação de retaliação por parte das autoridades da República Democrática do Congo?
Quando se diz congoleses, é por mero acaso, pois os cidadãos estrangeiros que caíram nas malhas da Justiça, na sua maioria eram congoleses. Esta operação nunca teve como alvo cidadãos de nenhuma nacionalidade em concreto. Por isso, pensamos que é injusto que as autoridades de qualquer país visado pensem em retaliar, uma vez que não existem cidadãos angolanos a pilhar as riquezas minerais de nenhum país africano. Se houver angolanos nestas condições e se esses países os expulsarem, nós não vamos reprovar a atitude das autoridades dos países que agirem em defesa dos próprios interesses. Teremos a hombridade suficiente para reconhecer que se houver angolanos com esse tipo de práticas, então sujeitam-se também a ser expulsos...

O que espera da “Operação Resgate”?
Esta operação está a ser intencionalmente adulterada por determinadas pessoas. Ela visa, em vários domínios, o resgate dos bons valores da nossa sociedade e não tirar o pão a ninguém ou mandar as pessoas para o desemprego. Pretendemos repor a ordem pública, porque é inadmissível o exercício de comércio informal em passagens aéreas. Dizem que Angola é África e em África é assim, mas nós não aceitamos, porque não é esta a África que aspiramos deixar aos nossos netos. O que pretendemos é conduzir as pessoas que se dedicam ao comércio para os locais mais adequados, que não dificultem o trânsito e a vida dos cidadãos e que garantam a segurança dos utentes.

Depois da vinda do primeiro-ministro português, António Costa, a Luanda, o que leva na bagagem para elevar o nível de cooperação com Portugal?
Não vamos iniciar uma nova relação, vamos dar continuidade a uma relação de cooperação que data praticamente dos primeiros dias da independência. O que vou fazer agora é procurar elevar ainda mais o nível de uma cooperação que pretendemos mais salutar e coesa.

Que áreas pretende priorizar?
Vamos procurar cativar os investidores privados portugueses em todas as áreas onde for possível. Ali onde os investidores portugueses entenderem que podem ganhar dinheiro e deixar bens e serviços, nós agradecemos. Mas estou a referir-me a investidores e não a comerciantes, não aqueles que queiram apenas vender coisas a Angola.

Acredita que Portugal vai ajudar Angola a repatriar o capital que reclama?
Acho que sim, Portugal e outros países. A relação de Portugal com Angola é de tal ordem que talvez mais facilmente possa colaborar connosco. Mas acredito que as galinhas não tenham posto os ovos só em Portugal. Devem estar espalhados pelo mundo fora...

Um dos sectores mais críticos em Angola é a fraca qualidade dos professores. Em que medida Portugal pode ter um papel determinante para ajudar Angola a suprir essa lacuna?
Portugal pode e já está a ajudar, uma vez que ao longo destes anos temos formado muitos quadros em Portugal. Também há a possibilidade de muitos técnicos portugueses virem trabalhar para Angola na área da Educação e também da Saúde. Portugal tem muitos quadros da Saúde que estão à procura de outras oportunidades e nós atrevemo-nos a convidá-los a vir trabalhar para Angola.

Sendo a Galp um fruto apetecido, acha que a Sonangol pode vir a aumentar a sua participação na multinacional portuguesa por via de uma eventual aquisição da participação de Isabel dos Santos, de resto, suportada pelo Estado angolano?
Vejo muito pouco provável essa possibilidade, porque em qualquer ato de compra e venda tem de haver vontade recíproca tanto de quem quer vender como de quem quer comprar. E a tendência é precisamente contrária. O Executivo já anunciou que a Sonangol deve retirar-se de grande parte dos negócios e das participações em que está envolvida e que não têm muito que ver com o seu core business.

Mas no caso da Galp...
Sim, já vou chegar aí. Neste caso, é verdade que está dentro do seu core business, mas não deixa de ser uma dispersão e, por esta razão e porque a tendência é esta, é muito pouco provável que a Sonangol se interesse em ter uma participação na Galp pela via que acaba de citar. Não temos nada contra os portugueses do grupo Amorim, antes pelo contrário, mas num casamento deve haver vontade recíproca entre o noivo e a noiva, ambos têm de estar interessados.

Ou seja, nem Isabel dos Santos está interessada em vender nem a Sonangol em comprar...
Já respondi...

O mesmo é válido para o caso do Banco Millennium em Portugal?
Com a resposta que acabei de dar, não estou a dizer que vamos sair amanhã. Estou a dizer apenas que a tendência é essa...

Até que ponto a mudança de regime político no Brasil poderá afetar as relações entre os dois países?
As relações entre os Estados não se devem confundir com as relações entre Executivos, e o que se passou no Brasil foi uma mudança de Executivo mas não uma mudança de regime. Teremos de saber lidar com a nova realidade. As relações de cooperação entre os dois países vão continuar. Se serão nos mesmos moldes? Se o BNDS vai continuar a dar financiamento a Angola nos mesmos moldes? O que poderemos dizer é que vamos retirar a componente do petróleo e vamos renegociar. Mas a renegociação não significa o fim das relações de cooperação.

Acredita na vitalidade da CPLP para dinamizar a cooperação entre os países de língua portuguesa?
Acredito no potencial da CPLP, embora reconheça que a realidade está muito aquém. Entre o que é a CPLP hoje e aquilo que ela pode vir a ser, dependendo da vontade dos Estados-membros, existe uma diferença — hoje é uma coisa e amanhã pode vir a ser bem melhor se nos sentarmos para repensar bem o que pretendemos dela.

Como exímio jogador de xadrez que é, quando será o seu próximo xeque-mate?
Não posso revelar mas não tarda...

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Eu sou a mãe de Bin Laden: "Era uma criança muito boa"

Eu sou a mãe de Bin Laden: "Era uma criança muito boa"



FotoOsama Bin Laden à conversa com um pequeno grupo de repórteres em 1998 DR

Alia Ghanem e dois dos irmãos do antigo líder da Al-Qaeda falam à imprensa pela primeira vez. “[Osama] era uma criança muito boa e amava-me muito”, diz a mãe de Bin Laden, que ainda se recusa a aceitar que o filho seja o principal responsável pelos ataques de 11 de Setembro de 2001 nos EUA.

Alia Ghanem é a mãe de Osama bin Laden, o antigo líder da Al-Qaeda, e aceitou falar pela primeira vez. O diário britânico The Guardian conversou com esta mulher na sala da sua casa em Jidá, na Arábia Saudita, onde não faltam fotografias emolduradas do primogénito, morto em 2011 por militares americanos na residência dele em Abbottabad, 50 quilómetros a norte da capital do Paquistão, Islamabad, quase dez anos sobre o ataque às torres gémeas de Nova Iorque.

Alia, que já tem mais de 70 anos, recebe Martin Chulov, repórter do Guardian no Médio Oriente desde 2005, na companhia de Ahmad e Hassan, os dois filhos que lhe restam, e do segundo marido, Mohammed al-Attas, que criou Osama desde que um dos principais rostos da ascensão do terrorismo internacional tinha três anos. Foi um bom pai, diz ela. “[Osama] era uma criança muito boa e amava-me muito.”

Há gerações que Jidá, cidade comercial na costa do Mar Vermelho e uma das mais ricas do Médio Oriente, serve de casa ao clã Bin Laden. A família, cuja fortuna está alicerçada num império da construção civil, continua a ser uma das mais poderosas e influentes do país.


FotoOsama bin Laden tornou-se líder incontestado da Al-Qaeda. Na foto, um islamista no Cairo beija uma imagem dele REUTERS/ASMAA WAGUIH

Foi por intermédio do Governo saudita que o repórter do Guardian chegou à família, que se tem mantido em silêncio todos estes anos. Foi por pressão da nova liderança, encabeçada por Mohammed bin Salman, um príncipe jovem com um gosto invulgar pelo confronto e pela mudança, que mãe e irmãos aceitaram falar. Riad, escreve Martin Chulov, está apostada em demonstrar que, ao contrário do que alguns defendem há muito, aquele que é dado como o principal responsável pelo 11 de Setembro não era um agente a soldo desta potência sunita do Golfo Pérsico, mas um proscrito.

  • A radicalização

A radicalização de Osama bin Laden, um rapaz tímido e aplicado, começou logo nos primeiros tempos da faculdade, conta a mãe. Foi na Universidade Rei Abulaziz, onde estudou Economia, que conheceu Abdullah Azzam, da Irmandade Muçulmana, o palestiniano que deu um suporte teológico à jihad afegã e que viria a ser o conselheiro espiritual. Na leitura que faz do que aconteceu na vida do filho mais velho, tudo corria bem até que ele conheceu “umas pessoas que basicamente lhe fizeram uma lavagem ao cérebro quando tinha pouco mais de 20 anos.” Alia Ghanem chama-lhe “um culto” que procurava reunir dinheiro para a causa: “Sempre lhe disse que se mantivesse afastado deles e ele nunca me contou o que estava a fazer porque me amava muito.”


FotoEsquema da casa onde Bin Laden foi capturado e depois abatido pelos EUA, no Paquistão

É Hassan, um dos meios-irmãos, quem durante a conversa tenta explicar como passou Osama de respeitado combatente contra a ocupação russa do Afeganistão – para onde foi no começo da década de 80 – a líder incontestado da Al-Qaeda durante quase duas décadas marcadas pelos atentados nos EUA, momentos que puseram o mundo a encarar o fenómeno do terrorismo à escala global.

“Tenho muito orgulho nele porque era o meu irmão mais velho. Ensinou-me muitas coisas”, diz, “mas não me orgulho muito dele como homem. Ele atingiu o estrelato no palco mundial mas foi para nada”.

Fonte:  PÚBLICO.PT

quarta-feira, 2 de maio de 2018

A inteligência não depende só dos genes I Saiba Mais

A inteligência não depende só dos genes I Saiba Mais


Diretor do departamento de Cultura e Cognição da Universidade de Michigan, nos EUA, o americano Richard Eugene Nisbett, de 76 anos, produziu ao longo das últimas quatro décadas alguns dos trabalhos mais influentes da psicologia social. Ele chamou a atenção do mundo acadêmico ainda em 1977, ao afirmar que muitos dos processos envolvendo escolhas, gostos e emoções são inacessíveis ao pensamento consciente. Depois de estudar as altas taxas de violência no sul dos Estados Unidos, ele lançou em 2003 o surpreendente livro “Geografia do Pensamento”, no qual afirma que a cognição humana não é a mesma em todos os lugares, o que é evidenciado por diferenças entre o pensamento dos ocidentais e dos orientais. Em seu livro mais recente, “Mindware — Ferramentas Para Um Pensamento Mais Eficaz” (Objetiva), Nisbett usa conceitos científicos para mostrar como podemos mudar a maneira de resolver dilemas do cotidiano. Na entrevista a seguir, o autor fala sobre o que é preciso para nos protegermos das fake news e afirma que o excesso de autoconfiança perpetua crenças equivocadas.

Temos ideias equivocadas sobre nossa inteligência?

A principal crença errada diz que nossa inteligência é determinada principalmente por nossos genes. Sua inteligência é determinada por aquilo que você aprende. Os genes de qualquer pessoa normal são suficientes para torná-la razoavelmente inteligente de todas as maneiras exigidas por sua cultura. Diferenças individuais em inteligência são, de fato, determinados pelos genes. Mas genes interagem com o ambiente em que aquela pessoa vive para produzir um nível específico de inteligência. Estamos descobrindo que pessoas com genes muito bons para a inteligência falharão em aproveitar ao máximo esse potencial se forem criadas em ambientes caóticos ou indiferentes.

É possível aprender a usar a mente de maneira mais eficaz?

Com certeza. Nós fazemos isso todos os dias. Bebês ficam deitados em seus berços analisando o mundo e tirando conclusões sobre ele. Seus familiares deixam você mais esperto todas as vezes em que falam sobre o mundo e mostram como fazer determinadas coisas. Da mesma forma, o convívio com seus vizinhos e colegas traz novas informações que o obrigam a refletir — e isso ajuda a desenvolver sua cognição. Você simplesmente não pode ser inteligente sem frequentar a escola. E quanto mais você frequenta a escola, mais pensante você se torna. Porém, os psicólogos descobriram como fazer com que as pessoas pensem de maneiras diferentes daquelas que a escola ensina. Por exemplo: de que forma podemos usar regras básicas de estatística e probabilidade em problemas cotidianos, ou como realizar pequenos experimentos e com eles maximizar a qualidade das escolhas do dia a dia.


Até que ponto ter mais informação ajuda a fazer as melhores escolhas?

Todo mundo concorda que é melhor ter mais informação do que menos informação. Mas as pessoas não têm ideia de quanto é necessário para cada tipo específico de problema. Elas conseguem dizer com facilidade se uma criança é uma boa jogadora de basquete ou se sabe soletrar bem. Mas não sabem como dizer se a criança é gentil, agressiva ou honesta. Isso também é importante para fazer um julgamento com maior confiança.


Alguns dos princípios discutidos em seu livro, mesmo quando ensinados em escolas, acabam não sendo aplicados pelas pessoas na vida cotidiana. Por quê?

Na escola, os princípios são ensinados em relação a dados abstratos, sejam resultados de testes de QI ou a taxa de produtividade de um determinado lote agrícola. Esses princípios podem até ser ensinados de maneira satisfatória, mas os professores não mostram como codificar os eventos cotidianos da vida de maneira a aplicar esses princípios. Muito do que escrevi em “Mindware” é sobre codificar eventos. Tenho esperança de que os professores possam usar mais problemas cotidianos para explicar conceitos estatísticos, lógicos e científicos nas salas de aula. Infelizmente, os professores tendem a considerar esses exemplos como material “adicional”. Minha experiência ensinando técnicas para pensar de maneira mais eficaz mostra que as pessoas aprendem melhor com exemplos cotidianos do que com abstrações. Esses exemplos deveriam fazer parte de todo currículo escolar.

Apesar de tantos avanços nas ciências, ainda pensamos como nossos ancestrais?

Esse é um ponto extremamente importante. Os caminhos do pensamento que evoluíram nos últimos 100 mil anos são perfeitamente adequados para a vida de caçadores e coletores, e são suficientes para a maior parte das inferências necessárias para o início dos tempos da agricultura. Mas a moderna sociedade industrial, e especialmente a nova Era da Informação, requer ferramentas de pensamento que vão muito além dessas tarefas básicas.

Quais são as principais falhas em nosso atual modelo de pensamento?

Algumas das principais falhas têm a ver com excesso de confiança. Temos muita confiança em coisas mesmo sem ter evidência suficiente para justificar esse comportamento. Por exemplo, se soubermos que uma pessoa foi honesta em uma ou duas ocasiões, tendemos a assumir que ela será honesta em outras ocasiões diferentes. Mas psicólogos sabem que isso não é verdade. Afirmar que uma pessoa é honesta, ou agressiva, ou extrovertida, requer muita informação. Empregadores acreditam que têm evidência suficiente sobre a competência de um candidato para uma determinada vaga após uma entrevista de meia hora com aquela pessoa. Na verdade, eles não têm nem remotamente evidência suficiente, e às vezes nem o tipo de evidência necessária, para julgar a competência daquele candidato. Relatórios de empregos anteriores, conquistas acadêmicas e cartas de recomendação são mais eficazes porque se baseiam em muito mais informação do que uma entrevista de emprego.


Por que é difícil perceber as relações entre eventos distintos? Isso não deveria ser algo intuitivo?
Nós superestimamos nossa capacidade de detectar correlações. Isso significa que temos ideias erradas sobre o que tem relação com o quê, e quais são as causas de certos eventos. Achamos que as pessoas ficam mais deprimidas às segundas-feiras, que as pessoas do signo de capricórnio são mais teimosas e que as ações na bolsa de valores tendem a subir mais no final da semana do que no começo. E podemos manter essas crenças incorretas com grande confiança.


Estatísticas podem ser muito importantes nas decisões que tomamos todos os dias. Mesmo assim, muitas pessoas têm dificuldade de lidar com números. É possível superar essa aversão?

Pensamento estatístico é fundamental na nossa Era da Informação. Felizmente, a estatística que precisamos no cotidiano não requer nenhum conhecimento matemático além da habilidade de multiplicar e dividir. A lei dos grandes números é um princípio estatístico que diz que quanto maior o número, mais perto das probabilidades reais estará uma determinada pesquisa. Mas quão grande um número precisa ser depende de quanta variação existe para o evento em questão. Uma única medida de altura é necessária para saber o tamanho exato de uma pessoa. Já a habilidade no basquete é variável em cada ocasião, então é preciso uma grande quantidade de informação, como a observação de um jogador em múltiplas partidas, para fazer um julgamento razoável. Para julgar a honestidade, a extroversão ou a agressividade de uma pessoa, uma quantidade enorme de informação é necessária, observada em ocasiões bastante diferentes, porque esses são atributos variáveis. O que eu faço é mostrar como analisar uma variedade de eventos para que as pessoas compreendam quanta evidência é necessária em cada um desses eventos.

Você diz que psicólogos e economistas aprendem muito uns com os outros. O que os economistas têm a ensinar às pessoas em geral?

A economia inventou regras sobre escolhas: como maximizar ganhos e minimizar perdas. Os psicólogos mostraram como aplicar essas regras nas escolhas que fazemos todos os dias. Dessa maneira, os psicólogos mostraram que as pessoas fazem escolhas de maneira diferente do que os economistas assumiram. O prêmio Nobel de economia foi oferecido a um psicólogo que mostrou que as pessoas não tomam decisões de acordo com a teoria do custo-benefício. Os economistas tomaram emprestado dos psicólogos o conceito de arquitetura da escolha (ou “nudge”), em que as escolhas são estruturadas de maneira a encorajar as pessoas a tomar decisões benéficas a elas e à sociedade. Países onde é necessário marcar um “x” em um papel dizendo que você não quer que seus órgãos sejam doados após sua morte têm uma taxa muito maior de doadores do que países em que você precisa marcar um “x” se quiser doar órgãos. Economistas são brilhantes em criar essas escolhas que nos tornam mais saudáveis, ricos e sábios, e psicólogos têm aprendido muito com eles.


Em uma era de notícias falsas, os princípios que você demonstra podem oferecer ferramentas para identificar o que é verdadeiro e o que é falso
?

Grande parte de “Mindware” é direcionada a ajudar as pessoas a julgar com discernimento as evidências e argumentos que elas encontram na mídia. Portanto, acho que elas ajudarão as pessoas a se proteger das fake news – sejam essas notícias intencionalmente falsas, o que acho que é relativamente raro, ou acidentalmente falsas, o que é bastante comum.


Seu livro pode ser visto como uma história concisa da psicologia no século 21. Esse foi um dos seus objetivos ao escrevê-lo?

Na verdade, eu não sentei para escrever com essa missão de revisar a história da psicologia do século 21. Mas ele acabou oferecendo essa leitura, sim.

fonte: Istoé

sexta-feira, 6 de abril de 2018

DjiTafinha ofereceu o seu álbum “Presidente” à Sebem

DjiTafinha ofereceu o seu álbum “Presidente” à Sebem




Num gesto que não encontramos palavras para descrever, o cantor, produtor e compositor DjiTafinha ofereceu todo o dinheiro arrecadado na venda do álbum “Presidente” que perfazem 1 Milhão de Kwanzas das 1000 Copias vendidas, no dia 31 de março. A “Enakela” decidiu contactar o artista para saber mais sobre o sucedido.


Foto de Dji Tafinha GLX Official.
“Com essa doação e a divulgação do acontecido, espero motivar outras pessoas a fazerem mais e melhor, para que juntos possamos ajudar uns aos outros e trabalhar em prol de uma sociedade mais humana.”  Foram palavras de DjiTafinha durante a entrevista que poderá ler já a seguir.

DjiTafinha dispensa apresentações, é um Artista já conceituado da nossa praça musical com onze álbuns no mercado desde “Preto no branco” em 2008 e agora o Album“Presidente”. Que segundo o artista:  “A venda do meu 11º álbum, entitulado “Presidente” foi um sucesso. O trabalho de equipa culminou numa venda organizada e numa experiência bastante positiva tanto para mim, como também para os meus fãs, que fizemos questão de tratar com carinho pois são eles a razão do meu sucesso.”
Esfilêndio dos Santos, mas conhecido por Sebem, o grande KotaSebem, também dispensa apresentações, um dos maiores kudiristas de Angola e também apresentador de televisão, com certeza já alegrou uma boa parte da população Angola com os seus hits, como a “Felicidade” e outros. E já à mais de quatro anos que que encontra-se em um situação menos boa, primeiro foi diagnosticado com Tumor na Cabeça e depois diagnosticado em Cuba de ter um parasita no sistema nervoso, uma doença raríssima provocada pela larva “TaeniaSolium”, esteve em cuba para tratamentos e havia sinal de melhorias, mas devido a condições financeiras, teve de voltar para continuar o tratamento em Angola.  Muita agua já correu em torno disto, e já chegou a ser dado como morto pelos órgãos de noticias. Já foi recebido por órgãos do governo, realizados Shows em sua homenagem para angariação de fundos, mas nada de concreto foi feito, segundo familiares. Tudo ficou pelas promessas.

Tentamos descrever o ato feito, pelo DjiTafinha mas impossível, isto é um ato puro de Amor ao próximo.

Enakela: Que motivos o levaram a fazer a doação que fez, foram motivos simplesmente solidário ou por algum tipo de afinidade?

DjiTafinha: A doação do valor total arrecadado com a venda dos 1000 cds, ao kuduristaSebem foi nem mais nem menos do que um ato de amor á um irmão que, neste momento, precisa muito mais desse dinheiro do que eu. Com essa doação e a divulgação do acontecido, espero motivar outras pessoas a fazerem mais e melhor, para que juntos possamos ajudar uns aos outros e trabalhar em prol de uma sociedade mais humana.
De lembrar, quem sem prometer, ou fazer marketing com intuito de ajudar o KotaSebem, DjiTafinha cumpriu com o perspetivado. E como diz o ditado “Amor gera amor” e uma das grandes esperanças é que este ato tenha um efeito domino e mais pessoas ajudem.

Enakela: Foi este álbum produzido com o propósito que teve?

DjiTafinha: Durante o marketing do álbum “Presidente” nenhuma menção foi feita ao verdadeiro propósito da venda do mesmo, pois não queríamos que a mensagem fosse distorcida e também não queríamos fazer propaganda com o nome do cotaSebem para justificar o sucesso das vendas. Fizemos o trabalho de casa e levamos o álbum a venda no shopping Avennida do Morro Bento. Graças aos meus fãs a venda foi um sucesso, e eles, mesmo sem saberem do verdadeiro motivo da venda, aderiram em massa e contribuíram para que essa doação fosse possível.

Enakela: Antes de ter feito a doação, fez uma ou algumas visitas ao colega de arte?

DjiTafinha: Já à muito tempo que tentava fazer uma visita ao cota Sebem mas por motivos de agenda, o mesmo não fora antes possível. Mas assim que finalizamos a venda dos cds, fiz questão de tirar um dia para conversar com o cotaSebem e revelar a verdadeira intenção da minha visita, o que o deixou bastante feliz.
Este ato de DjiTafinha apela a união, dos artistas, a união do povo, porque sozinhos podemos caminhar mais rápido, mas juntos vamos longe, e não conhecemos o amanhã.


Enakela: Pelo estado actual de saúde do músico, acha que a cultura ou mesmo o coletivo de músicos dentro das suas possibilidades devem fazer mais para uma melhoria significativa do músico ?

DjiTafinha: Eu acho que todos nós, fazendo parte dos orgãos da cultura ou não, sendo parte do coletivo de músicos ou não, temos o dever de ajudar, porque o cotaSebem marcou a nossa cultura, as suas músicas furaram barreiras e fizeram vibrar milhares de pessoas. Por ser essa figura ilustre do music-hall Angolano e principalmente por ser nosso irmão, ele precisa e merece a nossa ajuda.

Enakela: Como produtor musical, acha que ter o Sebem doente, o kuduro tem uma paragem significativa no seu progresso?

DjiTafinha: O Sebem é um dos pais do Kuduro e assim sendo, acredito que, caso não estivesse doente, poderia continuar a contribuir de forma muito significativa para o desenvolvimento do seu estilo musical.

Enakela: Depois desta doação, tem mais um plano de apoio ao músico?

DjiTafinha: Se Deus me abençoar e iluminar o meu caminho, pretendo fazer o que estiver no meu alcance para ajudar, não só o meu cotaSebem, mas também outros irmãos que precisem de apoio porque uma nação deve ser um só povo e um só coração. Quero, com a minha arte, poder mudar opiniões, quebrar barreiras, incentivar e ajudar o maior número possível de pessoas, dentro e fora de Angola.

Enakela: Que apelo deixa aos outros músicos e empresários em relação ao apoio ao músico Sebem que se encontra em estado adoentado?

DjiTafinha: Espero que todos aqueles que estejam em posição de ajudar, que o façam, que deem o seu contributo porque hoje é o Sebem que precisa de ajuda, amanhã posso ser eu ou qualquer outra pessoa, então temos que agir uns com os outros com compaixão e amor, porque todos precisamos uns dos outros.


Assim foi a pequena entrevista que tivemos para tentar perceber o ato de um homem com caráter e muito bom coração, e esperamos que as palavras de DjiTafinha fiquem em nossa mente “uma nação deve ser um só povo e um só coração”. Devemos ser sempre unidos, apesar de diferentes mas unidos, completando-nos uns aos outros.

“Quero, com a minha arte, poder mudar opiniões, quebrar barreiras, incentivar e ajudar o maior número possível de pessoas, dentro e fora de Angola.” ByDjiTafinha